segunda-feira, outubro 02, 2006

Coimbra exala estupidez


por Afonso Prá-ky

Coimbra exala estupidez. Uma estupidez negra e deformante chamada praxe, deveras perigosa. E uma estupidez autocne, fútil, que se importa mais com a brancura das batas exibidas pelos alunos de medicina e farmácia do que pelas manchas de sangue nas batas dos médicos, dos médicos que, chegados a casa, cultivam essa estupidez bafienta de mofo. E uma estupidez intelectual, que procura o monopólio pedante do conhecimento, acabando por separar o mesmo da inteligência, formando elites quadradas de professores que se esquecem que o são. Essas estupidezes várias são só uma, são a estupidez necessária numa cidade universitária, onde haveria condições para se propagar uma inteligência perigosa, alegre de vida. Mas a inteligência resiste, não apenas a inteligência pragmática e quotidiana de quem procura sobreviver à vida, gastando-a nessa luta, mas também a incisiva e estratosférica inteligência dos estudantes – que fundindo-se casualmente com a primeira se completa numa criatividade prometedora.
Numa cidade em que a estupidez, leia-se praxe, é arma duma batalha declarada contra a inteligência toda a inteligência é resistência – e toda a resistência inteligência. E descubro esta inteligência não apenas nela própria, mas principalmente na descoberta dos espaços onde ela vive – espaços que em Coimbra morrem menos que em outros sítios, nascendo até, por vezes. Há uma inteligência subjacente em Coimbra, a que apenas uma estupidez cobarde como a praxe pode responder, e responde efectivamente. A praxe, como o militarismo ou as claques de futebol e até determinados géneros de militância política, não passa de uma reacção à inteligência. Um mecanismo inconsciente do social, defesa do status quo – leia-se a estupidez totalitária de quem manda mandado. Daí fenómenos como os acima referidos atacarem faixas etárias potencialmente perigosas por natureza. Daí fenómenos como a praxe terem abandonado Coimbra para se disseminarem pelo país, acompanhando a abertura de Universidades por todo o território, permitindo entorpecer potenciais focos de inteligência, quem sabe focos até descontentes, até resistentes, quem sabe.
Assim a praxe não passa de um mecanismo que resolve um dilema criado pelas universidades. Sendo este o dilema: a sociedade precisa de uma elite inteligente, precisa assim das universidades, mas é necessário também um controle sobre essa elite, sobre essa inteligência perigosa, que confunde as competências necessárias com o conhecimento desnecessário (leiamos o tratado de Bolonha), então aí surge a praxe – uma repressão tanto mais eficaz pois é reproduzida por aqueles que ataca. Daí a praxe se ligar historicamente à Polícia académica, aos bufos da PIDE, à direita e ao fascismo. Daí Coimbra, berço nacional do conflito entre inteligência e estupidez, ser uma cidade onde tudo pode acontecer, mas onde, em geral, nada acontece, como diz um amigo meu – ele próprio exemplo de uma inteligência abundante feita humilde sensatez.

1 Comments:

Blogger Renato Prá-ky said...

Certo. Coimbra é tudo isso, e mais uns quilos de pedância ignóbil de cada doutor da tanga, antes e depois do seu "rasganço".
Mas é também a cidade onde meia dúzia de pessoas e uma boa ideia realizam um projecto.
Da luta à arte.

"Resistir é vencer."
ja dizia o Zé Mário Branco"

"Viver é pensar"
dizia o Séneca

Vive muito, camarada. As vitórias acabaram por chegar.

2:27 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home